Ás

Você me disse que eu era
dócil
manso que só e leve,
mas não me viu
no pé da tarde, quando
fritei estas e outras mais
palavras que lhe diziam
meu nome.

Hoje todos sabem
que carrego nas mangas
— trépidas, alucinadas —
lâminas, facas, espadas
todas de lã ou seda
e, no pior dos casos,
anestésicas.


Felipe Gregório

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O escolhido

Você conhece um novo poema:
chama-se falésias, ou
fratura imposta, ou recordação
ou qualquer outro nome
desses que se dão aos poemas
tão transcendentais, seja
lá o que isso quer dizer;

Você o veste na flor da mente
branca e decide:
daqui adiante só comerei
poemas
para regurgitar mais poemas
como faz a máquina
fordista.

Mas de você, assim como
dela, nada sai além
de versos pré-fabricados
iguais a sua origem,
às mesmices,
iguais uns aos outros

— talvez o último trovador
realmente tenha morrido
em 1914;
talvez ele não tenha se
lembrado de escrever
o seu nome.


Felipe Gregório

Embora

Às vezes a melhor
palavra se diz
calado

Às vezes o melhor
gesto
é estático

Às vezes a presença
é melhor na imagem
intocável

e o esquecimento,
mais que árduo,
necessário

Às vezes a cor da mudança
é ultravioleta, e a espera,
no fim da espera, multicor;

grilhões de uma recompensa
passageira, mas eterna
no intento, por dentro

Às vezes o restante é
perceber quais são
as vezes.


Felipe Gregório