Algum canto

algumas verdades são farsas
o próximo verso é
lindo
algumas palavras descalças
são todo o prazer
de um sorriso sorrindo

alguns amores não têm graça
como se um verso
exibido
algumas pessoas não sabem
guardar o viver
num jardim colorido

alguns dizeres são trapaça
e o verso então segue
inibido
alguns olhares ultrapassam
o próprio querer
e a cor do vestido

algumas caras são escassas
o verso até perde
sentido
algumas ações bem mais raras
possuem o poder
pra parar qualquer rio


Felipe Gregório

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Janela

Da janela posso vê-lo, este pedaço
tão modesto do que é a humanidade,
tão modesto, talvez não seja verdade
contaminando o caminho que eu traço.

Mas não há neste poema tanto espaço
como há no peito espaço pra saudade,
o que quero, e que a todos persuade:
um feel good genuíno a um bobo lasso,

pois minha janela mórbida não sabe
capturar dos céus tal coisa e pôr nos lábios,
da cozinha só me sobra este pedaço.

Tão formosa toda e qualquer raridade,
tão pequena a força da comunidade,
tão suposta como garantida a vida.


Felipe Gregório

Love Game

Entre a sua boca e a taça
descansam as palavras
que você nunca disse,
nunca engoliu, e ninguém
jamais pôde encontrar.

Palavras onde talvez se
esconda um sol, um grito
um sorriso
um ritmo impreciso
ou um medo antigo

— sempre têm as pessoas
um medo antigo.
Palavras que, reunidas,
como um grupo de quatro
ou cinco amigos, assistem

nascer a uma noite qualquer
de ares divididos.
Palavras que, uma por uma,
roubarei do mesmíssimo jeito
que sua taça não fez.


Felipe Gregório

Oito

A palavra, se pudesse
ser tocada, seria um
líquido viscoso como
a tinta que a reproduz,
porque pouco se observa
do tanto que se diz
e quando se percebe
já é tarde para se escrever;

Nem toda Flávia é loira
nem todo Sol é nosso
— é só no dia da mulher
que todo dia é da mulher.
Nem todo pensamento
é verdadeiro intento
e toda coisa parece
ser o que é.


Felipe Gregório

Jornal

Roberto, Roberto
na máquina das letras
datilografava o futuro
de ontem com a cara
bem mais que amassada
do verão
O que seria da chuva forte
que caiu na sexta-feira,
das árvores que caíram
com ela
e do José, que completava
cento e cinco anos
na sexta, na mesma sexta
quando meus sapatos novos
chegaram?
O cemitério amazônico
recebe milhares de árvores
por dia
A pobre-coitada
da hipocrisia, usada
e abusada e que ninguém via
Roberto, Roberto,
o que será da sexta-feira?


Felipe Gregório