Jornal

Roberto, Roberto
na máquina das letras
datilografava o futuro
de ontem com a cara
bem mais que amassada
do verão
O que seria da chuva forte
que caiu na sexta-feira,
das árvores que caíram
com ela
e do José, que completava
cento e cinco anos
na sexta, na mesma sexta
quando meus sapatos novos
chegaram?
O cemitério amazônico
recebe milhares de árvores
por dia
A pobre-coitada
da hipocrisia, usada
e abusada e que ninguém via
Roberto, Roberto,
o que será da sexta-feira?


Felipe Gregório

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O escolhido

Você conhece um novo poema:
chama-se falésias, ou
fratura imposta, ou recordação
ou qualquer outro nome
desses que se dão aos poemas
tão transcendentais, seja
lá o que isso quer dizer;

Você o veste na flor da mente
branca e decide:
daqui adiante só comerei
poemas
para regurgitar mais poemas
como faz a máquina
fordista.

Mas de você, assim como
dela, nada sai além
de versos pré-fabricados
iguais a sua origem,
às mesmices,
iguais uns aos outros

— talvez o último trovador
realmente tenha morrido
em 1914;
talvez ele não tenha se
lembrado de escrever
o seu nome.


Felipe Gregório

Assim

Se no topo da folha
uma maçã fruteja,
uma ameixa abaixo
fazem Terra e Lua;

já não cabe o Sol
neste poema, nem
há planta a quem
se pode recorrer.

Não se pode descre-
ver todo o universo
num verso
dodecassílabo,

mas cada estrela,
quasar ou galáxia,
cabem todos no
espaço

de uma palavra.


Felipe Gregório

Embora

Às vezes a melhor
palavra se diz
calado

Às vezes o melhor
gesto
é estático

Às vezes a presença
é melhor na imagem
intocável

e o esquecimento,
mais que árduo,
necessário

Às vezes a cor da mudança
é ultravioleta, e a espera,
no fim da espera, multicor;

grilhões de uma recompensa
passageira, mas eterna
no intento, por dentro

Às vezes o restante é
perceber quais são
as vezes.


Felipe Gregório

Ficou pros sonhos

Compramos um carro

ela, com seu sorriso salgado,
de firmamento fragmentado em maresia,
pintando de breu a tela preta
por centenas de quilômetros.

Abarrotado eu estava de divisas;

intrigou-se a maré a saber da mureta:
não via o simples do romance
os pés de ferro o fumacê
nas ondas verdes, de vento
ou de qualquer bicho a descosturar
a mata.
Não via que os pores dos sóis e das luas
nos vagões
eram peças por si só dramáticas,

por tanto que alcei tal fronteira.

Queria que fosse um trem,
mas de ferro só tive a mureta.

 


Felipe Gregório